A Arquitetura do Joá: os arquitetos que fizeram história no Rio
22 Jul 2026

A Arquitetura do Joá: os arquitetos que fizeram história no Rio

Joá

"A geografia criou o Joá. A arquitetura revelou-o."

Existem lugares onde a arquitetura procura afirmar-se através da monumentalidade.

Existem outros onde a verdadeira sofisticação reside precisamente no contrário.

No Joá, a arquitetura aprendeu que o protagonismo pertence à paisagem.

Talvez seja essa a razão pela qual este pequeno bairro da zona oeste do Rio de Janeiro se tornou um dos maiores laboratórios da arquitetura residencial brasileira.

Ao longo de mais de cinco décadas, alguns dos arquitetos mais influentes do país encontraram neste território um desafio raro: construir em encostas abruptas, entre grandes maciços de granito, Mata Atlântica preservada e uma das mais extraordinárias vistas sobre o Oceano Atlântico.

O resultado não foi um estilo arquitetónico único.

Foi uma filosofia.

Construir respeitando o lugar.

Nunca contra ele.


Um território que desafia a arquitetura

Projetar uma residência no Joá nunca foi uma tarefa convencional.

Ao contrário de bairros onde os terrenos permitem soluções repetitivas, aqui praticamente cada lote apresenta uma topografia diferente.

Existem grandes desníveis.

Afloramentos rochosos.

Vegetação protegida.

Restrições ambientais.

Ventos predominantes.

Orientações solares muito distintas.

Cada projeto começa por compreender a montanha.

Só depois nasce a arquitetura.

Talvez por isso tantas residências do Joá tenham sido publicadas internacionalmente.

Elas não poderiam existir em mais nenhum lugar.


José Zanine Caldas: quando a madeira encontrou a floresta

Falar da arquitetura do Joá é inevitavelmente falar de José Zanine Caldas.

Designer, construtor autodidata e um dos maiores nomes da arquitetura brasileira do século XX, Zanine encontrou no Joá um território perfeito para desenvolver aquilo que viria a tornar-se uma das suas maiores contribuições para a arquitetura tropical.

Entre o final da década de 1960 e meados da década de 1970 projetou diversas residências na região, utilizando grandes estruturas de madeira, ventilação natural e implantação cuidadosa sobre as encostas.

As suas casas pareciam nascer da própria floresta.

Em vez de remover árvores para construir, procurava adaptar a construção à paisagem existente.

Essa abordagem tornou-se tão relevante que décadas mais tarde seria objeto de uma dissertação de mestrado dedicada exclusivamente às residências de Zanine no Joá, demonstrando a importância histórica desse conjunto arquitetónico.

Hoje, muitas dessas casas continuam a ser consideradas património da arquitetura residencial brasileira.


Sérgio Bernardes e a revolução da arquitetura tropical

Se Zanine trouxe a madeira para o centro da arquitetura, Sérgio Bernardes revolucionou a forma de compreender o espaço.

Muito além da estética, Bernardes defendia uma arquitetura capaz de responder ao clima tropical através da tecnologia, da ventilação e da integração com a paisagem.

Os seus projetos exploravam grandes vãos estruturais, planos envidraçados e soluções que eliminavam a fronteira entre interior e exterior.

Embora a sua produção se estenda muito para além do Joá, a influência do seu pensamento tornou-se evidente em inúmeras residências construídas nas encostas cariocas.

Ainda hoje muitos arquitetos reconhecem Bernardes como uma das principais referências da arquitetura tropical brasileira.


Claudio Bernardes: a maturidade da arquitetura residencial

Na década de 1980, Claudio Bernardes aprofundou essa linguagem.

A sua Casa Joá (1986) permanece como uma das residências mais emblemáticas do bairro.

Madeira.

Concreto aparente.

Pedra natural.

Grandes planos de vidro.

Ventilação cruzada.

Tudo foi pensado para permitir que a natureza atravessasse a própria arquitetura.

Não existe excesso.

Existe equilíbrio.

É precisamente essa simplicidade que faz da Casa Joá uma referência até hoje.


Thiago Bernardes e uma nova geração

A tradição da família Bernardes continua através da Bernardes Arquitetura, atualmente liderada por Thiago Bernardes.

Entre os projetos mais reconhecidos destaca-se a Capela Joá, vencedora do Architizer A+ Awards.

Pequena em escala, mas extraordinária na sua conceção, a capela praticamente desaparece entre a vegetação.

Os materiais refletem a floresta.

A estrutura acompanha o terreno.

O oceano surge discretamente ao fundo.

Mais do que um edifício religioso, tornou-se um manifesto sobre a relação entre arquitetura e natureza.


Indio da Costa e a elegância contemporânea

Entre os arquitetos contemporâneos que melhor compreenderam o espírito do Joá encontra-se Luiz Eduardo Indio da Costa.

A sua Residência no Joá, concluída em 2018, demonstra como a arquitetura contemporânea pode dialogar com a paisagem sem recorrer ao excesso.

Volumes independentes distribuem-se sobre a encosta.

Passagens envidraçadas unem os diferentes espaços.

Espelhos de água refletem o céu.

O oceano acompanha toda a circulação da casa.

Os interiores, assinados por Duda Porto, reforçam essa linguagem através de materiais naturais, iluminação discreta e uma decoração onde a vista continua a ser a protagonista.

É um projeto onde arquitetura, interiores e natureza parecem pertencer à mesma composição.


Arthur Casas e a sofisticação silenciosa

Poucos arquitetos brasileiros alcançaram reconhecimento internacional comparável ao de Arthur Casas.

No Joá, a sua Casa AL tornou-se um exemplo de como transformar um terreno extremamente complexo numa residência de grande elegância.

Em vez de lutar contra a topografia, Arthur Casas utilizou-a para criar diferentes planos, enquadrando progressivamente a vista para o Atlântico.

É uma arquitetura silenciosa.

Sem gestos excessivos.

Sem necessidade de impressionar.

Talvez por isso permaneça tão atual.


Casa Onda: quando a arquitetura se inspira no mar

Na vizinha Joatinga, inserida no mesmo contexto geográfico e paisagístico, encontra-se um dos projetos residenciais brasileiros mais publicados internacionalmente.

A Casa Onda (Wave House), assinada pelos escritórios Mareines Arquitetura e Patalano Arquitetura.

A residência parece nascer de um enorme bloco de granito.

A cobertura curva reproduz o movimento das ondas.

As fachadas praticamente desaparecem perante o oceano.

É um projeto que demonstra como a arquitetura contemporânea brasileira continua a inovar sem romper com a paisagem.


Jacobsen Arquitetura e o luxo essencial

Embora a sua produção esteja distribuída por várias regiões do Brasil, o Jacobsen Arquitetura representa uma das linguagens que melhor dialogam com o espírito do Joá.

Grandes superfícies envidraçadas.

Estruturas leves.

Madeira.

Pedra natural.

Ventilação.

Integração com a paisagem.

Mais do que criar edifícios icónicos, o escritório procura criar lugares onde arquitetura e natureza coexistem de forma quase invisível.

É exatamente essa filosofia que explica porque tantas residências contemporâneas do Joá seguem princípios semelhantes.


Uma arquitetura que pertence ao lugar

Talvez seja impossível definir um estilo arquitetónico do Joá.

Mas é fácil reconhecer um princípio comum.

As melhores casas do bairro nunca procuraram dominar a paisagem.

Procuraram revelá-la.

A montanha continua presente.

A floresta continua presente.

O oceano continua presente.

A arquitetura limita-se a enquadrar tudo isso.

E talvez seja precisamente essa humildade perante a natureza que transformou o Joá numa referência internacional da arquitetura residencial.

Num tempo em que tantos projetos procuram chamar atenção, o Joá recorda-nos que a verdadeira sofisticação pode ser silenciosa.

Porque algumas das maiores obras da arquitetura brasileira nunca tiveram como objetivo impressionar.

Tiveram apenas como objetivo pertencer ao lugar onde foram construídas.


Sobre a autora

Aline Sofia acompanha há vários anos o mercado residencial de alto padrão do Rio de Janeiro. O seu interesse pelo Joá vai além do mercado imobiliário: estuda a história, a evolução urbana e o património arquitetónico do bairro, acreditando que compreender um território é essencial para compreender o verdadeiro valor de uma residência.

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